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O escorpião que se ferroou

Entre as paredes do seu quarto, Caio não caía. Nunca, nem quando estava bêbado. Mas bebia sozinho, em seu quarto sozinho. Sair era o supérfluo da vida. Vida era ler qualquer coisa para o tempo passar mais rápido para quando ninguém sabe. Caio não sabia, pelo menos. Esperar o nunca que chegaria de uma forma inesperada, mas que nunca poderia ser esperado, pois Caio só caía entre as paredes de seu quarto enquanto nem percebia.

Seu amor maior na vida era também seu hobby. Contrair o tempo era necessário, era a janela da sorte para quem sabe entrar no seu próprio Strawberry Fields Forever… Errar é humano, não perceber o erro também.

Amigos são supérfluos, se você precisa cativá-los, e conviver nunca se fez necessário. Sair de casa era só uma perda de tempo e por que ninguém trouxe o que pedi. Ninguém sabe o que pedi… Afinal o objetivo distante está invisível, e a graça fugiu assim que abri a janela.

Todo momento seria resumido como correr e não sair do lugar; já vi tudo que é possível como um filme resumido de todos os filmes. Sentimentos são superestimados…

A sala de espera fica vazia. A luz entra como fogo e a madrugada existe em mim como faísca que morre em surdina, murmurando que sentimentos são subestimados.

O jogo vira; o ânimo surge. Caio sai pela porta, e decide que tropeçar pode ser legal, mas o jogo vira, e vira. A ampulheta não para de rodar em torno do seu mesmo eixo inquebrável. Desejo de todo coração que esse eixo se quebre, Caio seria feliz…

Caio não sabe quebrar o vidro que gira essa areia, então ele espera.
E espera.
Espera sem sentido…

Que o vidro se desintegre.

Que a porta por onde saiu ontem seja trancada. Selada.

Que o caminho seja tortuoso, mas infinito em cada momento, por mais infinitesimal que seja.

O caminho não deveria ser um ciclo; A vida não deveria ser.

E a mão está na maçaneta de uma porta entreaberta. O suor na testa escorre pelo vão entre as sobrancelhas, atingindo a ponta do nariz. Mão suada e pernas trêmulas. A porta está entreaberta, e a mão na maçaneta. O rosto que pega fogo leva borboletas pela traqueia, direto pro estômago. As borboletas não deveriam trazer felicidade? Por que elas se alimentam de mim?

 
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Publicado por em abril 28, 2013 em Uncategorized

 
Nota

Clara estava sentada em frente ao espelho. Tinha terminado de sair do banho e o chão estava bem frio, mas ela não ligava. O motivo: os olhos refletidos ali. Seu pai não sabia, muito menos sua mãe, nem mesmo clara conhecia esses olhos. Ali estava Maria, sempre tímida, submissa, feliz pelo pouco ou nada que ganhava de carinho. Sua única preocupação era deixar os outros bem. Clara ainda não conhecia Maria, então logo se levantou e colocou um desses vestidinhos que a mãe tinha separado na cama daquele quarto cheio de bonecas que ela odiava. Mas não falava, porque não era certo meninas não gostarem de bonecas descabeladas, ou de casinha e chaleira. Ela queria brincar na terra, plantar alguma semente de alguma fruta, pedalar na bicicleta que ganhou dos avós no último natal e que ainda tinha rodinhas. Ela tinha vergonha das rodinhas e não andava na bicicleta, também nunca havia pedido ao pai para ele ensiná-la a andar sem rodinhas. Não iria ocupar o pai além do trabalho que tomava dele quase todo tempo. Voltava sujo, e a mãe ainda reclamava da casa, falava que precisava disso e aquilo. Não entendia como a mãe podia ser tão cruel com o pai, que permanecia calado. A mãe não trabalha, o pai não deixa, e clara ia à escola. De todos colegas, se juntou à Mari, quer dizer, Marina, mas todos chamavam de Mari, então assim mesmo ficou. Lanchavam juntas e Clara sempre levava alguma coisa para dividir. Queria uma dessas balinhas de festa que a mãe de Mari colocava na lancheira da filha, mas Mari nunca oferecia… O que não a aborrecia, mas também não a deixava feliz. Era assim, bem quieta, às vezes rindo, às vezes indiferente, mas sempre agradando, sempre sendo útil, mas nunca reconhecida. Clara e Mari adolescentes, Mari grávida e Clara ajudando com o chá de bebê. No início, foi quem ajudou a segurar a barra que a amiga passou com a família, quase expulsa de casa. Ela conversou com os pais de Mari, deu suporte, foi amiga. O pai da criança sumiu, a criança nasceu, Tatiana foi madrinha, mas Maria não ligou, só bastava que a criança a amasse, e que a mãe da criança fosse sua amiga. Era Milena e tinha 4 anos quando o pai apareceu, Mari deu um sorriso sem graça, como quem pede desculpas, e foi. Deixou Milena, o pai não queria.

Maria já havia saído de casa há algum tempo. Era professora e abrigava Mari, que decidiu ser vendedora numa loja do centro. Milena muito esperta, parecia com a “tia”, que agora era mãe. Maria havia sentado no chão em frente ao espelho; acabou de sair do banho e tinha 47 anos. Era o dia do casamento de Milena e ela estava orgulhosa, mas reconheceu os olhos  da menina do espelho, era Clara e não tinha se casado como sonhava, não tinha plantado sementes nem sabia andar de bicicleta sem rodinhas. Era Clara e não tinha marido, nem aventuras, nem história dela pra contar, porque tudo se resumia aos outros, e ela, bem, Clara não viveu… Foi Maria, que podia ver agora o arrependimento nos olhos de Clara.

Crônica de arrependimento

 
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Publicado por em agosto 7, 2012 em Uncategorized

 

Desabafo de fim de período

Seis meses como um ano de cansaço. Não foi como esperava, não mudei como deveria.  Passam as novidades e resta o que eu era: Paranóico, deprimido, carente e um adolescente mimado que frequenta psiquiatra por problemas fúteis que me travam. Sobre o motivo de tanto bloqueio?  Foi-me dito que “essa bola tenho que pegar sozinho”! Mas e se eu não quiser pegar?  E se não for pra eu pegar?

Já me disseram: ”keep calm, work hard and stop the mimimi”, mas eu não vejo o menor sentido em sentimentos artificiais, ou tão efêmeros que não parecem valer a pena; Tudo que muda e faz com que nossos esforços pareçam não ter valido a pena insistem em rodear meu sono. Já não sei se era paz o que queria, porque não me seria suficiente ser quem não sou. Talvez seja só um universitário cansado ao fim de um semestre que está falando, talvez seja alguém que se ilude pra poder sobreviver e escapa na própria cabeça num mundo de possiblidades absurdas. Queria ter liberdade, queria ter família que me amasse por quem sou e não por quem esperam e supõem que eu seja.  Reclamo como adolescente, mas para todos os efeitos, sou adulto. Não sei enfrentar meus problemas, nem posso usufruir da minha vida por causa de limites impostos por gente que não enxerga além do próprio nariz.

Já não me sinto pertencer a lugar nenhum que não seja um lugar desconhecido.  Entender o porquê dessa necessidade de fuga, de esconderijo, me vem algumas coisas à cabeça, mas nada muito concreto… Sei que não perdi fantasias de criança, e sei que todas essas fantasias envolvem eu estando sozinho, conhecendo gente nova, estando longe da família. Por quê?

E dói, uma dor de um sentimento infantil. Saber que não é único, saber que não há uma grande missão aguardando por você, e que não existe nada de excepcional ou habilidoso que você possa aplicar.

 
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Publicado por em agosto 7, 2012 em Uncategorized

 
Nota

Já apaguei meu cigarro velho no parapeito da janela. E chove. O dia que foi, foi só promessa, pra mim que vejo a vida passar na janela do vizinho como um filme ainda sem final. Onde está o clímax não sei, espero que longe e espero que vários. Espero e vivo enquanto isso, e que seja um caminho ascendente.

Não tenho paciência pros que resmungam por bobagem. Viro a página e sigo em frente ansioso pela próxima esquina, por onde não vejo além. É só promessa, e isso é a vida. Quero o agora como sempre quis e venho tendo. Não choro porque quero o que já foi, choro por mim e por lembranças, e não tenho chorado tanto mais; é só mais alguma nostalgia perturbando, me lembrando que devo acreditar – em tudo.

12/03/2012

Enquanto chove

 
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Publicado por em março 12, 2012 em Uncategorized

 

“Ano novo, vida nova”

Então segunda começam as aulas. Segunda começa o ano; a vida nova, mais uma vez. Volto pro Rio com a esperança de que tudo seja ainda melhor do que já foi. E olha, vai ser difícil esse ano superar o que passou.

Volto porque quero mais. Mais dos meus amigos, de mim e da vida. Mais surpresas e menos preocupações por nada. Rir por lá é mais gostoso. Ir ao mercado, andar pela rua, esperar o ônibus que não passa, ver o movimento e aquele monte de idosas mais cheias de energia que eu; Fico bem, me faz feliz. Gosto de voltar às dez da noite de ônibus pro apt que alugo e sentir o vento na cara. E ver as pessoas que andam pela rua a essa hora. Gosto das festas e gosto dos cinemas. Sinto falta do festival e não vejo a hora de me enfiar de novo naquele sesc em Botafogo com aquele monte de gente que faz cara de quem sabe de tudo da vida, de quem já passou por tudo, mas que está tão perdida quanto eu.

Que 2012 me traga alegria e também um pouco de ousadia, que não me tire nenhum amigo- porque Deus sabe como é importante ter amigos quando se mora sozinho- e me dê a quem amar. Alguém que preste, por favor. Chega de mirar, apostar e errar feio, mais disso e meu coração não aguenta. Ou não… Não sei se estaria preparado pra um relacionamento. Mas enquanto isso, a gente espera e procura e espera mais um pouco, acreditando que um dia, um dia aparece. E esperar faz parte da nossa vida mais do que fazer, parece que passamos a maior parte da nossa vida esperando. E esse é o problema.

É esse o meu maior pedido para a vida: de 2012 pra frente, que eu espere menos e faça mais; Que não seja tão inseguro, nem tão medroso. Peço menos medir as consequências e mais se jogar de cabeça. Que 2012 venha melhor que 2011 e pior que 2013, mas só não me faça a maldade de me deixar estacionar.

01/03/2012

 
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Publicado por em março 5, 2012 em Uncategorized

 

01:42

Tudo aquilo que é novo assusta, é o que dizem; respondo que não, que gosto do novo. Acontece que essas páginas em branco me deixam inseguro, e isso é normal. É bom, na verdade! Não seria novo se não tivesse pelo menos um pouco de incerteza. E recomeçar a escrever é estranho, mas é coceira em perna engessada: você coça; dá seu jeito e, simplesmente, coça. Uma necessidade que acalma. É como trancar os demônios em papel e selar com tinta. Alívio seguido por um cansaço satisfeito. Daí criei um novo blog e larguei o antigo fechado… não sei se consigo escrever com frequência, já que as férias estão acabando, mas vale tentar. E sim, sei que o texto está meio porco, mas é que estou na praia, e a única caneta da casa está sendo usada por alguém na rede com uma revistinha de palavra-cruzada. Dá pra ouvir o barulho da rede balançando aqui do quarto. Tenho vergonha de pedir a caneta pra escrever, preguiça de ir à banca da esquina e escrevo mal no computador. Na verdade já é madrugada, a banca fechou faz umas duas horas, o vento que entra pela janela é daqueles que te obrigam a tirar pelo menos um cochilo e tem praia pela manhã…

 
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Publicado por em fevereiro 19, 2012 em Uncategorized